A chave de um mestre do ofício - Tárik de Souza
Ele é um dos precursores do BRock, desde a banda A Bolha, nos 70 e Hanói-Hanói, nos 80, à co-autoria de megaclássicos do setor como “Rádio Blá” (com Lobão e Tavinho Paes) e “O tempo não pára” (com Cazuza). Mas ele também é co-autor do bombom “soul” “Noite do prazer” (com Claudio Zolli e Paulo Zdanowski), perpetuada pelo grupo Brylho, que integrou, em 1983. E é o mesmo Arnaldo Brandão que atuou com os Doces Bárbaros Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, integrou A Outra Banda da Terra, só de Caetano, e forneceu-lhe o primeiro grande sucesso de vendagem. Não por acaso o “ao vivo” do baiano, de 1986, ganhou o título de “Totalmente demais”, faixa que AB assinou com o mais constante parceiro, Tavinho Paes. É este exímio multiartista que desembarca seu terceiro CD solo, o incandescente “Amnésia programada”. Nele, Arnaldo toca violão, guitarra, baixo, bateria, percussão e teclados, assina todas as dez faixas, oito delas, parcerias com Tavinho Paes, que conheceu na época áurea do Baixo, quando o poeta vendia seus livrinhos alternativos e cevava futuras platéias.
Dono de um selo, editora e estúdio que aluga para ensaio e gravações, o influente Arnaldo prefere não definir seu estilo entre o rock e a MPB, o acústico e a eletrificação que permeiam o novo CD, numa tapeçaria estética onde minimalismo encontra o progressivo. Ele recicla a febril “Insonia”, feita com Tavinho, em 1979, para a cantora Marina Lima, e a mítica “O ano do dragão”, ambas do repertório do Hanói, Hanói. Esta última, “com uma levada influenciada por Pink Floyd e Jorge Ben”, também letrada por Tavinho, data de 1987, limiar do ano do dragão no horóscopo chinês, que acontece de 12 em 12 anos. “Mas as mudanças só ocorrem no ano seguinte”, ensina. “Como em 1989, com a queda do muro de Berlim. No ano seguinte ao 2000, também do dragão, caíram as torres gêmeas em Nova Iorque. Em 2012 será o novo ano do dragão, e o que cairá em 2013?”, pergunta. E transporta para os timbres sombrios da faixa a indagação da letra: “Quanto tempo ainda posso errar/ até 2012 entrar no ar?/ Qual o mundo que vai acabar/ quando o dragão chinês voltar?”
A questão do tempo e os rumos da humanidade, por sinal, fornecem a matéria prima abrasiva do disco “Amnésia programada”. “Inventei esse título em 2002, baseado nos livros que eu lia na época, ‘Nenhuma paixão desperdiçada’, de George Steiner e ‘A publicidade é um cadáver que nos sorri’, de Oliviero Toscani. E, sobretudo, numa frase que diz ‘Tudo já foi feito, tudo já foi inventado, a novidade é o que caiu no esquecimento’, se não me engano de Jorge Luis Borges”, rebobina. E aprofunda-se na faixa que abre o repertório num mantra dialético (“perdoar não é esquecer/ o sofrimento e o prazer”) sobre pedais de distorção: “O título se refere ao conceito de que os políticos, junto com seus financiadores, banqueiros e industriais, usam a publicidade e suas mídias para manipular as pessoas, levando-as a um conformismo consumista niilista. Por outro lado, eu, viciado em informação, consciente ou inconscientemente invento estados de espírito para manter o equilíbrio entre a razão e a emoção. E não me deprimir com o fato de que a humanidade, do jeito que vai, caminha para a destruição”. Com um trecho rapeado por Tavinho Paes, o co-autor, “À venda” também desliza no sarcasmo: “tem um cara ali na esquina vendendo almas num bazar/ se paga à vista dá desconto, o estoque é pra liquidar”.
A Garota de Ipanema passeia repaginada por “Beijo de peixe”, cuja primeira parte foi tecida após Arnaldo ver a indomável inglesa PJ Harvey no programa de Jools Holland. “Quando fui fazer a segunda parte, meio sem querer, cantei a letra de ‘Garota de Ipanema’ em cima de melodia que acabara de criar. Chamei o Tavinho e imediatamente começamos a trabalhar a versão Século 21 da Helô Pinheiro. Era o ano de 2008 e se falava muito na bossa nova, e assim ficou nossa homenagem”. Já outra parceria da dupla, “Sorria, você tá sendo filmado”, nasceu de um poema de Tavinho sobre o ano de 1968 (“ser livre é ser vigiado/ levantaram outro muro, agora é tudo grafitado/ é proibido proibir que se cometa um pecado”) que levou Arnaldo a arquitetar um xote meio galope, introduzido por cítara. Escrito sem parceiro, o rock de guitarras roncando “Um cana a fim de grana” surgiu após o solista ter sido proibido de fazer show numa sexta feira santa. Mas a letra seguiu por outro caminho, o lunfardo, a gíria portenha que inspirou a linguagem dos malandros cariocas na década de 20 do século passado e até hoje faz circular palavras como “bacana” e “otário” .
Sempre conjugando a inspiração sem amarras com o polimento instrumental de timbres e texturas inventivas, Arnaldo Brandão faz de “Amnésia programada” um denso manifesto de sua arte viajante. Mas nada de cabecismo ou sisudez. “Não vale nada, se não for por diversão”, prega o rock-desafio que fornece a chave do disco de um mestre do ofício.