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06 Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki

Arnaldo Baptista on April 20, 2011 15:31

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    LÓKI? – ARNALDO BAPTISTA - (1974)
    Produção: Arnaldo Baptista

    Texto: Marcelo Dolabela

    Foto: Leila Lisboa Sznelwar, do ensaio para capa do álbum

    Jean-Luc Godard, depois de experimentar várias radicalidades, demarcou o território
    impossível de um artista: “Ninguém faz duas revoluções”, e concluiu: “Ainda bem”.
    Era como se mandasse um recado e predestinasse uma outra voz para a esfinge, em
    forma de eufemismo, de paradoxo, de axioma.

    João Gilberto fez a revolução bossanovística; Oswald de Andrade, o pau-brasil/
    antropófago; Hélio Oticica, os parangolés do experimentar o experimental. Com a
    Tropicália, que, antes de estabelecer plenamente, foi “abortada”, pelo AI-5 e suas
    seqüelas, talvez a maldição godardiana foi diferente, cada tropicalista seguiu seu rumo.
    Com os Mutantes, não foi diferente. Arnaldo Baptista – Rita Lee & Sérgio Dias
    escreveram parábolas dentro e a partir de parábolas. Viveram suas possibilidades
    coletivas, paralelas e individuais.

    Arnaldo, na musicografia tropicalista e na própria música brasileira, é o artista que
    saques produziu para quebrar a maldição godardiana. Depois de ser o motor dos
    Mutantes. Depois de produzir os primeiros álbuns solos de Rita Lee _ Bluid up, 1970 e
    Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida, de 1972. Depois de ir e vir. E partir para a
    carreira solo. Levou o conceito de radicalização ao extremo. Seu primeiro álbum-solo:
    Lóki? (Philips, 1974), é, até hoje, o disco mais visceralmente revolucionário da música
    brasileira . Com um instrumental mínimo – teclado (Arnaldo), contrabaixo (Liminha),
    bateria (Dinho) e backing-vocals (Rita Lee) – (o último encontro dos Mutantes), Lóki?,
    em dez canções, passa a limpo toda a era do rock and roll e o que poderia ter sido uma
    tropicália lisérgica. Sem dúvida, o melhor elenco de canções incluídas em um único
    álbum.

    O formato do álbum é conceituado. Os dois lados do disco abrem com canções chaves. O
    lado A com “Será que vou virar bolor” e o lado B “Ce ta pensando que sou Lóki?”. Ambas
    trazem as inquietações pós-Mutantes de Arnaldo. Qual o futuro? O esquecimento?
    (Bolor) ou A loucura? (Lóki?). As outras oito canções vão respondendo, cada uma, de
    uma forma e de um ponto-de-vista. A minimalista canção final “È fácil”, responde com
    uma melodia supertrabalhada e uma miniletra: nem o esquecimento nem a loucura, mas
    a genialidade da música. É fácil!

    As outras canções são: “Uma pessoa só”, única faixa herdada dos Mutantes, da época
    do A e o Z. Canção utópica que aponta para a plenitude da convivência humana, em um
    único corpo e em um único projeto de vida.

    “Não estou nem ai” é a antítese de “Uma pessoa só”, o antípoda que nega os projetos
    utópicos e enfrenta o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.

    Continuando, a quarta canção do lado A é “Vou me afundar na lingerie” é a terceira
    possibilidade, nem o mundo utópico, nem a dureza da vida cotidiana, mas o hedoismo, o
    ócio, a prequiça como destruidores das opressões e barras-pesadas.

    Fechando o lado A, a instrumental “Honky tonky”, com apenas Arnaldo no piano, em um
    misto de boogie woogie e levada trans-stoneana, trans-“Honky tonky woman”.

    O lado B, depois de “Ce ta pensando que sou Lóki?”, traz “Desculpe”,uma releitura
    de “Desculpe, babe”, de Arnaldo Baptista & Rita Lee , do álbum A divina comédia ou
    ando meio desligado, dos Mutantes de 1969. É uma outra resposta para o impasse:
    esquecimento/ bolor/ lóki/ loucura. O “amor” como a grande questão. O dizer sim ou
    não. Perdoar ou não. Seguir em frente.

    A terceira canção “Navegar de novo” é uma resposta concisa. É o bola pra frente”, “o
    enfrentar as intempéries” e “seguir”.

    A Cançao sequinte “Te amo podes crer” é, talvez, a obra-prima das canções de amor
    do rock brasileiro. Em dois minutos e cinqüenta segundos, Arnaldo faz um tratado das
    dores de amores, um Werther, um Tristão e Isolda, um Romeu e Julieta com piano,
    sintetizador, contrabaixo elétrico e bateria.
    Fechando, a chave-de-ouro de “É fácil”.
    E o conceito faz clique e se completa. Na era do CD, algumas informações se perdem,
    mas uma que, no vinil, fazia muito sentido ainda vale ser comentada. Os dois lados
    do disco (A e B) trazem exatamente 16 minutos e 50 segundos, nem um nem dois
    segundos a mais ou a menos. E no rodapé da ficha técnica, uma única nota: “Este disco
    é para ser ouvido em alto volume”. Aumentar o volume não só do aparelho, mas do rock
    e das emoções primitivas de cada um. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).

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