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SINGIN’ ALONE (1982)
Produção: Arnaldo Dias Baptista
Texto: Marcelo Dolabela
Foto: Grace Lagoa
O CIBORG VALVULADO SINGIN’ ALONE.
Oito anos depois do último disco com os Mutantes – O A e o Z, lançado só em 1992, sete
anos após seu primeiro álbum-solo – Lóki? – e depois de várias de várias experiências
sonoras com o grupo Patrulha do Espaço, Arnaldo, em 1981, à maneira de Paul
McCartney. Nos álbuns McCartney, de 1970; o McCartney II, de 1981, volta aos estúdios
para gravar, tocando todos os instrumentos, as doze músicas do álbum Singin’ alone.
Se Lóki? Trazia toda a genealidade desesperada de suas viagens pós-Mutantes, agora,
Arnaldo teria de provar para si mesmo que todas suas teorias e propostas musicais,
que o afastaram dos Mutantes, faziam sentido. Sua quase hercúlea obsessão pela
amplificação valvulada, em detrimento da transistorizada, sua opção por guitarra Gibson
Les Paul, ao invés de Fender, e por contrabaixo Gibson SG.
Antes, que o álbum viesse à luz, Arnaldo fora internado no Hospital do Servidor Público
do Estado. Dias depois, se atira do terceiro andar, do setor de psiquiatria. Com várias
lesões, fica, na estação do inferno, por longos e sofridos quatro meses. Somente em
maio de 1982, começa a receber licença para deixar, temporariamente, o hospital. Numa
dessas idas, se recusa a voltar. Sob os cuidados de Lucinha Barbosa, sua companheira, e
da DJ Sônia Abreu, vai aos poucos emergindo.
Para ver, ainda no primeiro semestre de 1982, a estreante gravadora Baratos Afins, do
amigo e fã Luís Calanca, lançar, enfim, seu álbum Singin’ alone / Arnaldo II álbum. Num
quase-lançamento, Arnaldo realiza o show Abrindo a porta para uma nova vida, no Tuca.
Embora sem reais condições psicológicas, o show serve para recomeçar uma vida nova.
Se Lóki? É visceralmente explícito, o Singin’ alone traz o outro lado da revolta. Embora,
mais suave, resgata sentimentos e memórias, faz planos e discursos e arremata diálogos
e utopias.
Doze faixas compõem o disco. “I fell in love one day “ é uma espécie de outro lado
da canção How do you sleep?, de John Lennon, lançada um ano após o término oficial
dos Beatles, no álbum Imagine, em 1971, cujo tema central é a desilusão com o antigo
parceiro Paul McCartney. Arnaldo, em seu lamento, fala de suas principais paixões,
ou melhor, ilusões perdidas –a best friend, a wife, a house, a group – e da dúvida de
possíveis reencontros. Ou, como bem resume o próprio artista: I fell in love one day
relata, em letra, o avassalador poder destrutivo de certas seduções.
“ O sol” traz o personalíssimo estilo de texto de Arnaldo, mesclando inglês com
português, e neologismo – superpopulado – e deslocamento metafóricos: sunshine = sol
= ácido = LSD.
Em “Bomba H sobre São Paulo”, Arnaldo vê a cidade de São Paulo sob um imenso
cogumelo atômico, do alto da Serra da Cantareira, onde os Mutantes, já sem Rita Lee,
tinham casas _ a house perdida de I fell in love one day -. Ao mesmo tempo que se vê
São Paulo sendo destruída, percebe que a Cantareira não escaparia à hecatombe. Por
sinal, foi na Cantareira que um incêndio destruiu, por problema elétrico, o caminhão de
som do grupo, o Chevrolet Tenório.
“Hoje de manhã eu acordei” é outra canção que trabalha um velho tema pós- Mutantes,
a necessidade de dialogar com alguém que realmente entenda os novos tempos. Sai em
forma de monólogo e se constrói em oposições vitais: sol x arco-íris; eu x o outro; amor
x solidão; Eros x Thanatos; vida x morte.
“Jesus, come back to earth” tematiza, segundo o próprio autor, a fé em um Deus geral,
um ente superior, no sentido tecnológico e não divino, e o fascínio do desconhecimento
de sua sabedoria. Que, em síntese, ao ser compreendido, todos os mistérios serão
elucidados.
“Cowboy” foi composta a partir de um exercício de aprimoramento na técnica de
executar o contrabaixo. A letra traz temas míticos de Arnaldo: sonho x ciência,
motocicletas e as viagens.
“Sentado ao Lado da Estrada”, vertida para o inglês, com o título “Sitting on the road
side”, foi composta na estrada de Catanduva, e fala da dualidade cansaço x repouso;
ausência x presença; solidão x companhia. Enquanto se espera a condição para voltar o
mundo que deixou para traz, não custa pensar um pouco sobre o que já viveu.
“Ciborg” fala da preponderância da matéria em relação a vida espiritual, da relação vida
biológica x vida cibernética. E quando surgirá o ciborg perfeito?
“Corta-jaca”, boogie-honk-tonk-rock’n’roll, em homenagem ao avô paterno Horácio
Baptista, ex-prefeito da cidade paulista de Avaré, é outra canção composta em uma
viagem, à pé, entre São Paulo e Catanduva. O título remete à canção homônima
de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), de 1897, e ao duplo-sentido do termo: passo
tradicional do samba-de-roda e bajulador, Na letra, Arnaldo, se utiliza do tema folclórico
se essa rua fosse minha..., joga com os opostos: cidade x roça; rock’n’roll x cha cha
cha; passado x presente.
“Coming throuth the waves of science” é a síntese da nova proposta existencial e
musical de Arnaldo. Claramente dedicada à sua saída dos Mutantes e ao (ex-)amigo
Michael J. Killinbeck, engenheiro nuclear inglês, que no início doa anos 70, morou no
Brasil e foi um dos colaboradores da edição nacional da revista Rolling Stone. A música
é um manifesto-editorial que fala da desilusão, da descrença da entrega a amigos e a
projetos ideológicos e utópicos, com direito a citação da stoneana Let spend the night
together.
“Young blood”, canção dedicada à Silvia Helena, parceira do músico Zé Brasil, co-
fundador com Arnaldo da Space Patrol. O papo é, ao mesmo tempo, juvenil – culto à
beleza física – e metafísica – e que só a compreensão e o uso desta beleza/potência,
num sentido quase nitzscheano, poderá dar fim a opressões e hipocrisias.
“Train”, outra canção de estrada, composta em Londres, fala da hora necessária de se
voltar, porém, surge a pergunta: voltar para onde? Se a canção, aparentemente, não
responde, o palimpsesto (o novo papiro brasileiro) rock de Singin’ alone responde:voltar,
para Arnaldo Baptista, é, ao mesmo tempo, se distanciar, em alta velocidade, do
passado, e viabilizar, o mais rapidamente, seus projetos futuros.
E como bônus na edição do cd, fechando com chave de ouro , “Balada do louco”, de
Arnaldo Baptista & Rita Lee, do álbum Mutantes e seus Cometas no País do Bauretz, de
1972, não poderia ter sido melhor escolha. Primeira versão integral de Arnaldo para este
eterno hit dos Mutantes (a voz da gravação original é de Sérgio Dias; e no álbum Disco
voador, de 1987, Arnaldo verte o texto para o inglês – Crazy-one’s ballas) prova que o
Ciborg está plenamente em forma para novos projetos.
Com produção artística de Guto Graça Mello, arranjos e regência de cordas de Daniel
Salinas, e, na parte musical, o supertime formado por: Márcio Lomiranda (da banda de
Marina Lima), nos teclados – Wander Taffo (ex-Joelho de Porco, Secos & Molhados e
Rádio Táxi), na guitarra-solo – e, de empréstimo da banda de apoio de Marisa Monte, o
contrabaixista Fernando Nunes e o baterista Cezinha.
Alone & together, Arnaldo incendeia as válvulas da criatividade.

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