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02 O Sol

Arnaldo Baptista on April 19, 2011 23:49

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    SINGIN’ ALONE (1982)
    Produção: Arnaldo Dias Baptista

    Texto: Marcelo Dolabela
    Foto: Grace Lagoa

    O CIBORG VALVULADO SINGIN’ ALONE.
    Oito anos depois do último disco com os Mutantes – O A e o Z, lançado só em 1992, sete
    anos após seu primeiro álbum-solo – Lóki? – e depois de várias de várias experiências
    sonoras com o grupo Patrulha do Espaço, Arnaldo, em 1981, à maneira de Paul
    McCartney. Nos álbuns McCartney, de 1970; o McCartney II, de 1981, volta aos estúdios
    para gravar, tocando todos os instrumentos, as doze músicas do álbum Singin’ alone.
    Se Lóki? Trazia toda a genealidade desesperada de suas viagens pós-Mutantes, agora,
    Arnaldo teria de provar para si mesmo que todas suas teorias e propostas musicais,
    que o afastaram dos Mutantes, faziam sentido. Sua quase hercúlea obsessão pela
    amplificação valvulada, em detrimento da transistorizada, sua opção por guitarra Gibson
    Les Paul, ao invés de Fender, e por contrabaixo Gibson SG.

    Antes, que o álbum viesse à luz, Arnaldo fora internado no Hospital do Servidor Público
    do Estado. Dias depois, se atira do terceiro andar, do setor de psiquiatria. Com várias
    lesões, fica, na estação do inferno, por longos e sofridos quatro meses. Somente em
    maio de 1982, começa a receber licença para deixar, temporariamente, o hospital. Numa
    dessas idas, se recusa a voltar. Sob os cuidados de Lucinha Barbosa, sua companheira, e
    da DJ Sônia Abreu, vai aos poucos emergindo.

    Para ver, ainda no primeiro semestre de 1982, a estreante gravadora Baratos Afins, do
    amigo e fã Luís Calanca, lançar, enfim, seu álbum Singin’ alone / Arnaldo II álbum. Num
    quase-lançamento, Arnaldo realiza o show Abrindo a porta para uma nova vida, no Tuca.
    Embora sem reais condições psicológicas, o show serve para recomeçar uma vida nova.
    Se Lóki? É visceralmente explícito, o Singin’ alone traz o outro lado da revolta. Embora,
    mais suave, resgata sentimentos e memórias, faz planos e discursos e arremata diálogos
    e utopias.

    Doze faixas compõem o disco. “I fell in love one day “ é uma espécie de outro lado
    da canção How do you sleep?, de John Lennon, lançada um ano após o término oficial
    dos Beatles, no álbum Imagine, em 1971, cujo tema central é a desilusão com o antigo
    parceiro Paul McCartney. Arnaldo, em seu lamento, fala de suas principais paixões,
    ou melhor, ilusões perdidas –a best friend, a wife, a house, a group – e da dúvida de
    possíveis reencontros. Ou, como bem resume o próprio artista: I fell in love one day
    relata, em letra, o avassalador poder destrutivo de certas seduções.

    “ O sol” traz o personalíssimo estilo de texto de Arnaldo, mesclando inglês com
    português, e neologismo – superpopulado – e deslocamento metafóricos: sunshine = sol
    = ácido = LSD.

    Em “Bomba H sobre São Paulo”, Arnaldo vê a cidade de São Paulo sob um imenso
    cogumelo atômico, do alto da Serra da Cantareira, onde os Mutantes, já sem Rita Lee,
    tinham casas _ a house perdida de I fell in love one day -. Ao mesmo tempo que se vê
    São Paulo sendo destruída, percebe que a Cantareira não escaparia à hecatombe. Por
    sinal, foi na Cantareira que um incêndio destruiu, por problema elétrico, o caminhão de
    som do grupo, o Chevrolet Tenório.

    “Hoje de manhã eu acordei” é outra canção que trabalha um velho tema pós- Mutantes,
    a necessidade de dialogar com alguém que realmente entenda os novos tempos. Sai em
    forma de monólogo e se constrói em oposições vitais: sol x arco-íris; eu x o outro; amor
    x solidão; Eros x Thanatos; vida x morte.

    “Jesus, come back to earth” tematiza, segundo o próprio autor, a fé em um Deus geral,
    um ente superior, no sentido tecnológico e não divino, e o fascínio do desconhecimento
    de sua sabedoria. Que, em síntese, ao ser compreendido, todos os mistérios serão
    elucidados.

    “Cowboy” foi composta a partir de um exercício de aprimoramento na técnica de
    executar o contrabaixo. A letra traz temas míticos de Arnaldo: sonho x ciência,
    motocicletas e as viagens.

    “Sentado ao Lado da Estrada”, vertida para o inglês, com o título “Sitting on the road
    side”, foi composta na estrada de Catanduva, e fala da dualidade cansaço x repouso;
    ausência x presença; solidão x companhia. Enquanto se espera a condição para voltar o
    mundo que deixou para traz, não custa pensar um pouco sobre o que já viveu.
    “Ciborg” fala da preponderância da matéria em relação a vida espiritual, da relação vida
    biológica x vida cibernética. E quando surgirá o ciborg perfeito?

    “Corta-jaca”, boogie-honk-tonk-rock’n’roll, em homenagem ao avô paterno Horácio
    Baptista, ex-prefeito da cidade paulista de Avaré, é outra canção composta em uma
    viagem, à pé, entre São Paulo e Catanduva. O título remete à canção homônima
    de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), de 1897, e ao duplo-sentido do termo: passo
    tradicional do samba-de-roda e bajulador, Na letra, Arnaldo, se utiliza do tema folclórico
    se essa rua fosse minha..., joga com os opostos: cidade x roça; rock’n’roll x cha cha
    cha; passado x presente.

    “Coming throuth the waves of science” é a síntese da nova proposta existencial e
    musical de Arnaldo. Claramente dedicada à sua saída dos Mutantes e ao (ex-)amigo
    Michael J. Killinbeck, engenheiro nuclear inglês, que no início doa anos 70, morou no
    Brasil e foi um dos colaboradores da edição nacional da revista Rolling Stone. A música
    é um manifesto-editorial que fala da desilusão, da descrença da entrega a amigos e a
    projetos ideológicos e utópicos, com direito a citação da stoneana Let spend the night
    together.

    “Young blood”, canção dedicada à Silvia Helena, parceira do músico Zé Brasil, co-
    fundador com Arnaldo da Space Patrol. O papo é, ao mesmo tempo, juvenil – culto à
    beleza física – e metafísica – e que só a compreensão e o uso desta beleza/potência,
    num sentido quase nitzscheano, poderá dar fim a opressões e hipocrisias.

    “Train”, outra canção de estrada, composta em Londres, fala da hora necessária de se
    voltar, porém, surge a pergunta: voltar para onde? Se a canção, aparentemente, não
    responde, o palimpsesto (o novo papiro brasileiro) rock de Singin’ alone responde:voltar,
    para Arnaldo Baptista, é, ao mesmo tempo, se distanciar, em alta velocidade, do
    passado, e viabilizar, o mais rapidamente, seus projetos futuros.
    E como bônus na edição do cd, fechando com chave de ouro , “Balada do louco”, de
    Arnaldo Baptista & Rita Lee, do álbum Mutantes e seus Cometas no País do Bauretz, de
    1972, não poderia ter sido melhor escolha. Primeira versão integral de Arnaldo para este
    eterno hit dos Mutantes (a voz da gravação original é de Sérgio Dias; e no álbum Disco
    voador, de 1987, Arnaldo verte o texto para o inglês – Crazy-one’s ballas) prova que o
    Ciborg está plenamente em forma para novos projetos.
    Com produção artística de Guto Graça Mello, arranjos e regência de cordas de Daniel
    Salinas, e, na parte musical, o supertime formado por: Márcio Lomiranda (da banda de
    Marina Lima), nos teclados – Wander Taffo (ex-Joelho de Porco, Secos & Molhados e
    Rádio Táxi), na guitarra-solo – e, de empréstimo da banda de apoio de Marisa Monte, o
    contrabaixista Fernando Nunes e o baterista Cezinha.
    Alone & together, Arnaldo incendeia as válvulas da criatividade.

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